Categoria: Política Internacional


 

“A invasão de terras indígenas na região amazônica por empresas transnacionais para explorar suas riquezas minerais levou ao despertar de importantes movimentos indígenas, o que ocasionou, entre outros conflitos, um massacre chamado de Baguazo, em junho de 2009, que teve 34 mortos, pela resistência indígena a ocupação de terras para exploração mineral. O Congresso peruano aprovou nesse momento uma legislação que contemplava a consulta aos movimentos indígenas sobre os investimentos.”

A vitória de Ollanta Humala para a presidência do Peru fecha um longo ciclo de governos neoliberais e abre novas perspectivas para o país, ao mesmo tempo que fortalece o campo dos processos de integração regional e enfraquece a precipitada operação de construção de um eixo neoliberal, com o México, a Colômbia e o Chile, em contraposição aos governos posneoliberais.

O governo nacionalista de Velasco Alvarado (1968-1975) foi seguido de uma serie de governos que buscaram desarticular os avanços do governo de Velasco, tanto no plano da reforma agrária, quanto na construção de um projeto nacional no Peru. Foi derrubado por um golpe militar dado por um ministro seu , Morales Bermudez, que governou até 1980.

Foi sucedido por Alan Garcia (1985-1990), do partido mais estruturado do Peru, o Apra, que tentou uma moratória da divida externa peruana, não recebeu sequer apoio de governos da região, não conseguiu controlar a inflação e caiu, sem apoio interno. Na sua sucessão se degladiaram Vargas Llosa, com um programa claramente neoliberal, e o desconhecido Alberto Fujimori, que se valeu da rejeição do estilo aristocrático do escritor, para triunfar.

No governo, Alberto Fujimori (1990-2000) assumiu um projeto de contrainsurgencia que, ao mesmo tempo que combatia a guerrilha do Sendero Luminoso, destruía a espinha dorsal do forte movimento popular peruano, tanto no campo, quanto na cidade.
 
Entre as ações do Sendero – que atacaram também as forças populares que não se submetiam à sua ação – e as ações do Exercito, o movimento popular peruano sofreu, sob um fogo cruzado, ações demolidoras, que o reduziu à uma expressão mínima. Fujimori deu um golpe, fechou o Congresso e interveio na Justiça (para o que recebeu, vergonhosamente para nós, o apoio de FHC), estendeu seu mandato, mas terminou caindo por processos de corrupção e violência, pelo que, depois de fugir para o Japão, foi condenado a 23 anos de prisão, cumprindo atualmente a pena.

Foi a partir dessa destruição da capacidade de defesa e resistência do movimento popular que se erigiu o projeto neoliberal no Peru, mediante os governos de Fujimori, Toledo (2001-2006) e Alan Garcia (2006-2011) cobrindo um período de mais de 20 anos, em que a economia peruana voltou a crescer, em base a uma extensa exploração extrativista exportadora das riquezas do pais, centrada no ingresso maciço de empresas estrangeiras. As condições não poderiam ser melhores para essas empresas, dado que a tributação geral no país gira em torno de 15% do PIB, sem recursos para que os governos fizessem políticas sociais.

Repetiu-se assim com Fujimori, Toledo e Alan Garcia, o mesmo padrão de governo: continuidade do alto crescimento do PIB, centrado na exportação de minerais – ouro, zinco, cobre, gás, basicamente -, sem políticas sociais, com governos que, eleitos, perdiam popularidade de forma estrepitosa, seja pela corrupção que os envolveu a todos, seja pela falta de políticas sociais redistributivas.

Na eleição anterior se enfrentaram o projeto nacionalista de Ollanta Humala e Alan Garcia. Valendo-se de forte campanha de medo, depois que Ollanta havia triunfado no primeiro turno, com o apoio explícito de Hugo Chávez, Garcia triunfou por pequena margem e voltou ao governo, desta vez para dar continuidade aos programas neoliberais de seus antecessores e sofrer o mesmo tipo de desgaste.

No final do seu governo, já com menos de 10% de apoio, Toledo havia assinado um Tratado de Livre Comércio com os EUA. Apesar de não se comprometer explicitamente em mantê-lo durante a campanha, Garcia assumiu o TLC e consolidou a abertura neoliberal da economia peruana. Com a recessão norteamericana, no entanto, o Peru passou a ter na China o seu principal parceiro e no Brasil um sócio muito importante, ambos com crescentes investimentos no país.

A invasão de terras indígenas na região amazônica por empresas transnacionais para explorar suas riquezas minerais levou ao despertar de importantes movimentos indígenas, o que ocasionou, entre outros conflitos, um massacre chamado de Baguazo, em junho de 2009, que teve 34 mortos, pela resistência indígena a ocupação de terras para exploração mineral. O Congresso peruano aprovou nesse momento uma legislação que contemplava a consulta aos movimentos indígenas sobre os investimentos.

Essa legislação passou a se constituir em um obstáculo a investimentos já existentes e a outros programados, mas o governo nunca a regulamentou, promovendo situações de incerteza, tanto para os investimentos, como para os movimentos indígenas. Dias antes do segundo turno das eleições desta semana, um movimento parou a região de Cuzco, só aceitando suspendê-lo pela intervenção de Ollanta, mas com a perspectiva de retomá-lo em seguida, se não houver solução para suas reivindicações.

Movimentos deste tipo fizeram com que o país tivesse que reconhecer a região amazônica como região importante para o Peru e despertaram movimentos antes pouco conhecidos no país, promovendo os conflitos sociais mais importantes, que devem se prolongar no novo governo.

O desprestigio de Garcia fez com que seu partido praticamente desaparecesse – elegeu apenas 4 parlamentares -, deixando aberta a sucessão, para a qual se apresentaram vários candidatos neoliberais – entre eles Toledo, um ex-ministro de economia de Garcia, um ex-prefeito de Lima, a filha de Fujimori, diante do único candidato que criticava o modelo, Ollanta Humala. O Apra nem sequer conseguiu apresentar um candidato próprio, com Garcia apoiando ao candidato neoliberal que chegasse ao segundo turno.

Humala reciclou suas posições para um modelo de continuidade do desenvolvimento, mas com redistribuição de renda mediante elevação da taxação dos investimentos mineiros e políticas sociais, modelo próximo ao de Lula. Conseguiu, com base de apoio popular, especialmente no interior do país, chegar de novo em primeiro lugar no segundo turno, desta vez contra Keiko, a filha de Fujimori, que gozava também de apoio popular, baseado nas políticas assistencialistas do seu pai na luta contra o Sendero Luminoso.

Em viagem oficial ao Peru, quando se encontrou com Garcia, Lula recebeu publicamente também a Ollanta, com quem trocou opiniões sobre experiências brasileiras na construção de alternativas ao neoliberalismo. Desde então Ollanta veio ao Brasil, tanto na eleição de Dilma, quanto na sua posse, consolidando laços com Lula, Dilma e o PT, o que se traduziu, inclusive, em apoio politico à campanha de Ollanta. (enquanto os tucanos, envergonhados, torciam por Keiko, filha do amigo de FHC.)

O segundo turno foi muito acirrado, tanto na disputa de votos, quanto nas acusações. O apoio da velha mídia peruana, fortemente alinhada com Keiko e as campanhas, conhecidas por nós, de calunias e terror contra Ollanta – a ponto de chegar a revoltar a Vargas Llosa, que rompeu com o jornal tradicional, El Comercio, no qual historicamente publicava suas colunas -, incluindo falsas declarações e telefonemas de Ollanta e, horas antes da abertura da votação, uma suspeita ação, atribuída ao Sendero Luminoso.

Na fase final da campanha, os movimentos de rua e pela internet de rejeição a Keiko, pelos riscos de retorno da camarilha do governo do seu pai – governo de que ela participou como primeira dama -, contribuíram para a vitória apertada de Ollanta. Isso, apesar do apoio maciço da classe média e da oligarquia peruanas em Lima e em regiões do norte do país, além do apoio do governo de Garcia e dos 2 candidatos neoliberais derrotados – Toledo, que havia se elegido no bojo das mobilizações populares que derrubaram a Fujimori, ficou em quarto lugar e apoiou Ollanta.

Ollanta soube, no segundo turno, estabelecer as alianças para conseguir triunfar, renunciando a algumas propostas do seu programa inicial, como nacionalizações de empresas e convocação de Assembleia Constituinte.

Seu triunfo fecha o ciclo de 20 anos de governos neoliberais no Peru, e o mesmo se dá no marco de compromissos já estabelecidos, como o TLC com os EUA. Mas mesmo nesse marco, haverá uma clara aproximação com o Mercosul e, em particular com o Brasil, seja por afinidades políticas, seja pelos interesses econômicos mútuos entre os dois países e distanciamento do pólo neoliberal em que o México, a Colômbia e o Chile pretendiam construir, como alternativo aos processos de integração regional que envolvem a grande maioria dos países da região.

Abre-se para o Peru o caminho de colocar em prática políticas sociais redistributivas – apelo forte da campanha de Humala e, de alguma forma, também de Keiko – e nova inserção internacional do país, que passa a se somar aos governos posneoliberais da região. Não se pode definir precisamente quando o Peru se havia estrepado, mas certamente seguiu por esse caminho nas duas últimas décadas e 2011 marca o momento em que o país, sob a liderança de Ollanta e com forte respaldo popular, começa a ser resgatado para um projeto de ampla democratização econômica, social, política e cultural.

Ricardo Teixeira deve depor na semana que vem

BBC RELACIONA TEIXEIRA COM PROPINA
DIRIGENTES DA FIFA NÃO CONTESTAM ACUSAÇÕES

  • A CBF, entidade que comanda toda a execução da Copa do Mundo no Brasil, não consegue ficar fora das páginas policiais. O que aconteceu com a farta documentação produzida pela CPI do Futebol? A Rede Globo produiu um Globo Repórter com detalhes de tudo, um escândalo, e até hoje não foi ao ar. Por quê?

O nome de Ricardo Teixeira, presidente da CBF, está envolvido em mais uma polêmica. O dirigente foi convocado para depor na CPI dos Cartórios da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, que investiga suspeitas de fraudes em documentos de terrenos na Barra da Tijuca, zona oeste da cidade, informa o diário Lance!

O motivo do envolvimento de Teixeira é a área do futuro centro de treinamento da entidade, que levantou suspeitas nos parlamentares. Isso porque o terreno, comprado pela CBF por R$ 26 milhões junto ao empresário Pasquale Mauro, é reivindicado por um posseiro e por uma empreiteira, que alegam serem donos do local. A CPI quer investigar se a CBF foi enganada pelo empresário ao comprar um terreno que não lhe pertencia. Mauro pode estar envolvido em fraudes nas transações do Cartório do 9° Ofício. Em um documento, o diretor jurídico da CBF, Carlos Eugênio Lopes, alegou desconhecer as denúncias. Também convidado a depor, declarou que não iria comparecer e que “o advogado não deve depor sobre assuntos de que tenha conhecimento em razão da profissão e muito menos prestar informações a quem quer que seja sobre as atividades e negócios de seu cliente”.

FIFA INVESTIGA ADVERSÁRIO DE BLATTER

Acusada de corrupção, a Fifa anunciou nesta quarta-feira que vai investigar suposto suborno do adversário de Joseph Blatter na eleição para presidente da entidade, Mohamed bin Hammam e seu vice-presidente Jack Warner Leia Mais

A convocação de Ricardo Teixeira foi motivada pela recusa do diretor, considerada uma ofensa pelos parlamentares. A sessão com os dirigentes da CBF deve ocorrer na próxima semana.

BLATTER: “ACUSAÇÕES CONTRA FIFA SÃO POR INVEJA”
QATAR SE DEFENDE POR ACUSAÇÕES DE CORRUPÇÃO

O presidente da CPI, deputado Paulo Ramos (PDT-RJ), deve expedir uma segunda convocação para o diretor. “A CPI não está investigando a CBF. A CPI está investigando o Cartório do 9° Ofício, que fez a maioria das transações que podem ser ilegais. Queremos saber se a CBF foi passada para trás, assim como muitos foram. Só queremos esclarecimentos”, disse ao jornal Lance!.

O ditador nazista Adolf Hitler (1889-1945) continua sendo até hoje cidadão de honra da cidade austríaca de Amstetten, que ganhou a triste fama mundial por ser o lar de Josef Fritzl, que escravizou e violou sua filha durante 24 anos, informa nesta terça-feira a emissora pública “ORF”.

Segundo o vereador do partido verde, Raphael Lueger, os responsáveis da Prefeitura de Amstetten (no estado de Baixa Áustria) sabem há anos dessa cidadania de honra mas nunca quiseram fazer nada para revogá-la.

“Sempre disseram que a situação se subentende e que não é preciso uma revogação separadamente. Mas eu me pergunto: por que não simplesmente se revoga?”, disse Lueger em declarações a “ORF”.

Hitler visitou Amstetten em 1939, uma cidade a 130 quilômetros ao oeste de Viena, e desde então leva oficialmente o título de “cidadão de honra”.

Perante as críticas lançadas pelos ecologistas através da imprensa austríaca, o prefeito social-democrata da cidade, Herbert Katzengruber, prometeu reagir.

“Devemos dar um sinal e eliminar este tema e declarar a cidadania de honra (de Hitler) como nula e sem efeito”, manifestou o prefeito em declarações à emissora pública.

Segundo o vereador, o conselho da Prefeitura de Amstetten se reunirá o mais rápido possível para tomar este passo.

Mas o caso de Hitler não é o único, os ecologistas querem estudar também a revogação da cidadania de honra de Paul Scherpon, um antigo tenente de prefeito da cidade e membro do partido nazista.

Amstetten, de 23 mil habitantes, foi cenário de um dos piores crimes da história da Áustria, descoberto em maio de 2008, quando descobriram que Josef Fritzl tinha aprisionado sua filha Elisabeth durante 24 anos em um porão, onde a violou sistematicamente e com a qual teve sete filhos.

Fritzl, de 76 anos, foi condenado em março de2009 a prisão perpétua.

Tá no Blog de José Cruz

             O processo que o procurador da República, Édson Abdon Filho, do Rio de Janeiro, move contra o ex-ministro do Esporte, Agnelo Queiroz, pelo pagamento antecipado de alugueis na Vila Pan-Americana, é indício de um escândalo maior, que revela como, no jogo de interesses da República, é possível resolver problemas em cima da hora.

Resumidamente: 
            Em2004, aempresa Agenco precisava contrair empréstimo de R$ 189 milhões junto à Caixa para construir a Vila Pan-Americana, residência dos atletas do Pan 2007. Mas não tinha os 15% exigidos como garantia. Foi quando o então ministro do Esporte, Agnelo Queiroz, antecipou o pagamento do aluguel dos apartamentos, com valores projetados para junho de 2007. E liberou, três anos antes de receber os serviços, R$ 25 milhões ao Comitê Organizador do Pan – Co-Rio, que repassou a Agenco. Concluída a triangulação, estava garantido o dinheiro da garantia junto à Caixa. Em nota oficial sobre o assunto, assim se manifestou o Co-Rio, nesta segunda-feira: “O CO-RIO ressalta que sua participação neste empreendimento limitou-se a repassar integralmente e de imediato recursos de forma a viabilizar a construção da Vila Pan-americana.”                        Ou seja, o dinheiro público financiou a iniciativa privada; espécie de socorro de emergência feita de forma suspeita à luz das regras, normas e leis da getão do dinheiro público.
           Obtive informações de que tudo foi feito com o aval do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a fim de que as obras da Vila não atrasassem e, assim, comprometessem o sucesso do Pan.

Transação

           Com o apoio dos companheiros da ONG Contas Abertas obtive o documento referente a essa transação, disponível no Sistema Integrado de Administração Financeira – Siafi.  Pois o convênio firmado entre o Ministério do Esporte e o Comitê Organizador para ajudar a Agenco está registrado sob o número 171.  Ea ordem bancária em favor do Co-Rio, emitida no dia 17 de dezembro de 2004, tem a seguinte justificativa:

IMPORTANCIA QUE SE EMPENHA DESTINADO A ATENDER DESPESAS COM O CONVENIO 171/04, OBJETIVANDO ATENDER DESPESAS COM HOSPEDAGEM/ALOJAMENTO DAS DELEGACOES QUE  PARTICIPARAO DOS JOGOS PAN-AMERICANOS E PARAPAN-AMERICANOS RIO 2007.             

            A título de curiosidade, o artigo 171 é famoso no Código Penal brasileiro”. Curiosidade, repito.

        De repente, alguém gosta de fazer uma aposta na banca da esquina, e está aí um bom palpite de centena: 171 na cabeça. Boa sorte.

Veja que bela entrevista do representante do Brasil no Mercosul, Samuel Pinheiro, à Carta Maior

Contra o estereótipo que vê o Brasil atual como um império, o ex-ministro de Lula e alto representante do Mercosul, Samuel Pinheiro Guimarães, disse ao jornal argentino que a realidade é outra: o país pensa em associar-se e cooperar com seus dez vizinhos e com outros países em desenvolvimento. “Temos interesses em comum com os países mais pobres, os países em desenvolvimento, para mudar as regras do mundo.

A crise que vivemos mostrou a falência dos modelos neoliberais tanto em nossos países como nos desenvolvidos. As regras financeiras devem permitir espaço para os desenvolvimentos nacionais”. 

Martin Granovsky –  Quando Brasil e Argentina começaram a cooperar com força, no início do processo de redemocratização, Samuel Pinheiro Guimarães já figurava entre os mais ativos. Em novembro passado, os presidentes dos quatro países do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) criaram o cargo de alto representante do bloco, deram-lhe funções de construção e negociação e as atribuíram a ele por unanimidade. Pinheiro Guimarães exibiu seu perfeito espanhol na primeira viagem a Buenos Aires como alto representante. Prometeu visitar cada país seguidamente. Ocupado em ampliar o Mercosul para além do que chamou com ironia “uma burocracia cartesiana”, conversou com o chanceler Héctor Timerman e até teve tempo para reunir-se com um colega: Carlos Piñeiro Iñiguez, ex-embaixador no Equador que acaba de assumir o Instituto do Serviço Exterior da Nação. Por convite de Piñeiro, Pinheiro inclusive de uma aula de uma hora para os futuros diplomatas que cursam o Instituto. 

Carta Maior - É verdade que o Brasil tem uma ideia imperial de diplomacia ou isso é um mito?

Samuel Pinheiro Guimarães: (Ri.) Não. O Brasil tem um interesse muito forte no desenvolvimento de toda a região apesar das assimetrias entre os distintos países. Não é um império, não quer sê-lo nem quer repetir os erros dos impérios. Ao contrário. Acredita em associar-se, em cooperar, em reformar um sistema internacional que se caracteriza, a meu juízo, pela convivência de potências centrais e de ex-colônias, como nós. Temos interesses em comum com os países mais pobres, os países em desenvolvimento, para mudar as regras do mundo.

Carta Maior – O que seria preciso mudar?

Samuel Pinheiro Guimarães: A crise que vivemos mostrou a falência dos modelos neoliberais tanto em nossos países como nos desenvolvidos. As regras financeiras devem permitir espaço para os desenvolvimentos nacionais, e o mesmo deve acontecer com as regras sobre comércio e meio ambiente. Na Rodada de Doha, foi a primeira vez que os países em desenvolvimento tiveram uma posição firme e não aceitaram o cardápio tal como lhes foi apresentado.

Carta Maior – Se tomamos como dado o afeto e a irmandade, por que convém ao Brasil uma relação de cooperação com os vizinhos?

Samuel Pinheiro Guimarães: Temos muitos vizinhos. Se não contamos os Estados Unidos, que acreditam ter 191 vizinhos, estamos logo depois da China e da Rússia. Eles têm 14. Nós temos 10. Com esse número tão grande, está claro que é melhor ter vizinhos estáveis, em boas condições e em paz. Ninguém quer vizinhos turbulentos e pobres, não?

“Integrações Pinheiro Guimarães ficou à vontade no ISEN. Vice-chanceler e depois ministro de Assuntos Estratégicos de Lula, foi o modernizador do Instituto Rio Branco, do Itamaraty. Em sua conversa com os alunos do ISEN, argumentou que é ingênuo querer integrar-se ao mundo sem fazer parte de um bloco. Disse que, em termos comerciais, uma parte da América Latina já optou por acordos de livre comércio com os Estados Unidos: países da América Central, Chile, Peru, Colômbia. “Nós não quisemos a ALCA, em 2005, não somente por razões comerciais”, observou. “A ALCA era uma política econômica completa, que envolvia comércio, investimentos, negócios e propriedade intelectual”. Indagado sobre a existência de choques entre o Mercosul e a Unasul, negou. “A Unasul é um modo de manter próximos países que, comercialmente, optaram por outras políticas. É bom que todos integremos o Conselho Sulamericano de Defesa. Para mim é motivo de suspeitas quando alguém recomenda que não devemos nos preocupar com nossa defesa, que outro país vai se ocupar disso. Somos pacíficos, mas não temos por que ficar desarmados enquanto outros têm armas e as desenvolvem e quando sabemos também que a indústria militar é chave para o desenvolvimento tecnológico. Também foi taxativo quando um aluno perguntou-lhe se o Brasil, como parte dos Estados em desenvolvimento intermediário do mundo, não teria subido de posição. “Os que dizem isso querem que abandonemos nossas políticas”, analisou. “Avançamos extraordinariamente, mas no Brasil ainda há 60 milhões de pessoas em situação de pobreza. Uma Argentina e meia. Não, não subimos de posição. Seguimos trabalhando para isso”, disse o diplomata que sempre se sentiu confortável com Lula. Lula, síntese”

Carta Maior – Como foi ter Lula como chefe?

Samuel Pinheiro Guimarães: Uma experiência extraordinária. O próprio Lula é uma síntese da maioria dos brasileiros. Ele vem do Nordeste. Seu pai era uma pessoa muito violenta. Abandonou a família. Lula saiu do Nordeste para a periferia de São Paulo, com sua mãe e irmãos. Foi vítima de um acidente de trabalho. Sua primeira mulher perdeu a vida em um hospital. É trabalhador. Passou fome. Fez greve. Quando fala de uma inundação sabe do que fala. Viveu isso. Quando fala de greves ou desemprego, sabe do que se trata. Quando fala de discriminação, também. Por isso sua preocupação não é acadêmica. Ele viveu tudo isso.

Carta Maior – E como enfocava os temas internacionais?

 Samuel Pinheiro Guimarães: Lula tinha uma enorme experiência diplomática anterior ao governo. Tinha feito mais de 120 viagens e o primeiro chefe de governo estrangeiro que conheceu, o alemão Helmut Schmidt, pediu para vê-lo em sua casa. Conhecia vários deles antes que fossem líderes. Muitas vezes disse que era extraordinário a América do Sul ter chegado ao ponto de ter um operário presidente do Brasil e um indígena na Bolívia. Ao mesmo tempo, no início de seu governo, posicionou-se contra a guerra do Iraque. Página/12: O cargo de Alto Representante do Mercosul não existia. Samuel Pinheiro Guimarães: Não, e agradeço não só ao meu país que me propôs esse posto, mas a todos aqueles que aprovaram minha nomeação, entre eles a Argentina.

Carta Maior – As funções de Alto Representante são novas?

Samuel Pinheiro Guimarães: Sim. Tenho amplas funções dentro do bloco e também fora, certamente que seguindo as decisões políticas dos presidentes.

Carta Maior – O Mercosul goza de boa saúde?

Samuel Pinheiro Guimarães: O comércio se ampliou de maneira muito significativa. As taxas de crescimento são altas. Cresceram os investimentos. Ao mesmo tempo, a cooperação política se traduz em reuniões periódicas dos presidentes. Em certos países, há muitas críticas. No Brasil mais que na Argentina, sobretudo se há alguma diferença comercial. Há muito que melhorar do ponto de vista da imagem do Mercosul.

Carta Maior – Em que isso melhora a vida do cidadão comum?

Samuel Pinheiro Guimarães: A primeira coisa é o emprego. Se há exportação é porque se produziu antes e se criaram postos de trabalho. Nossos países exportam muitos produtos manufaturados aos países sócios do Mercosul. Isso aumenta a escala produtiva e reduz os custos de produção. Os empresários ganham mais e os trabalhadores têm mais e melhores empregos. E a competitividade é maior, comparada a de outros países. Politicamente, aumenta a compreensão mútua entre os países.

Carta Maior – O ingresso da Venezuela depende só da ratificação do Senado paraguaio?

Samuel Pinheiro Guimarães: Sim. Essa é uma questão política interna do Paraguai. É uma questão de tempo. Antes, a Venezuela era um país que não tinha sequer agricultura. Dependia de uma única matéria prima, o petróleo, que, além disso, era explorado pelos Estados Unidos para os Estados Unidos. É um país riquíssimo, com minerais e energia. Decide reorientar sua política para o Sul com o objetivo de incrementar o desenvolvimento do país. Assim, converteu-se em um mercado potencial importante. Página/12: Em energia? Samuel Pinheiro Guimarães: Depois da Arábia Saudita, que é o primeiro produtor, a Venezuela está entre os cinco ou seis principais produtores de petróleo do mundo. Quer diversificar suas exportações.

Carta Maior – O ingresso da Venezuela no Mercosul traz alguma dificuldade?

Samuel Pinheiro Guimarães: Pelo contrário. O país já vem participando do bloco e traz uma vocação integracionista forte.

Carta Maior – Como se administra o equilíbrio entre o desenvolvimento e a competição entre as empresas dos quatro países?

 Samuel Pinheiro Guimarães: Vivemos em um sistema capitalista. Isso implica a competição entre as empresas que, às vezes, significa baixa de custos e maior tecnologia. Mas não falamos de regimes capitalistas puros e sim de capitalismos reais. Quer maior intervenção que o salvamento que os países centrais fizeram com seus bancos? Ou por acaso os bancos quebraram e o Bank of America se converteu no Bank of Shangai?

Carta Maior –  Como avalia as relações entre a América do Sul e os Estados Unidos?

 Samuel Pinheiro Guimarães: Ela varia de país para país. Página/12: Então restrinjamos a pergunta e falemos de Mercosul. Samuel Pinheiro Guimarães: Não resolve, mas facilita. Não vejo conflitos. Claro, levemos em conta que os Estados Unidos são, por enquanto, a primeira economia mundial, mas a diferença militar é enorme: cinco mil ogivas nucleares contra 200 da China.

Carta Maior – Como devemos nos posicionar frente a essa influência?

Samuel Pinheiro Guimarães: A influência das multinacionais estadunidenses no Brasil e na Argentina é um fato. E não há restrições. No passado, o Brasil, por exemplo, aplicou normas para que os investidores tivessem que usar insumos nacionais, peças de automóveis por exemplo. A influência estadunidense em termos de livros, televisão, cinema é acachapante. É um tema industrial, cultural e ideológico. Por isso, os Estados não têm que restringir a empresa estrangeira, mas sim estimular os conteúdos locais, sobretudo na área audiovisual, que é o terreno da divulgação. Inclusive da divulgação do Mercosul e da cultura de cada país. Ao invés de hegemonia cultural, diversificação.

Carta Maior – Ninguém deve ser dominante?

Samuel Pinheiro Guimarães: Não.

Carta Maior – Qual a vantagem de diversificar?

 Samuel Pinheiro Guimarães: Como é a vida? Diretamente sabemos pouco. O restante conhecemos por meio de algum relato. Bem: diversifiquemos os relatos.

Chega a ser assustador como o ocidente reagiu ao assassinato do líder da Al Qaeda, Osama Bin Laden, acusado de ter idealizado e financiado o atentado as Torres Gêmeas (EUA). A morte de Osama está sendo comemorada nas ruas, no mesmo sentido vão as declarações oficiais de vários países. Eu acredito que a humanidade não criou toda uma estrutura jurídica sem um propósito. É assim que fazemos Justiça? Assassinando pessoas? O que difere um assassinato do outro? Está decidido então, a regra agora será olho por olho! O ocidente, muito recentemente é bem verdade, passou a criticar e a estimular reações as ditaduras às vezes disfarçadas de reinados do mundo árabe, mostrando as vantagens da nossa democracia. Mas na verdade estamos dando um péssimo exemplo de democracia. Não acredito que assassinar pessoas deva ser motivo para comemoração. Estamos diante de uma selvageria. Hoje é o dia Internacional da Liberdade de Imprensa. Que jornal, que televisão no mundo está questionando esta fórmula medieval de solucionar problemas? É a velha história dos falsos valores. Quando é pro meu lado a Lei não vale. É deprimente perceber que diante de tantos percausos a humanidade continua evoluindo pouco.

Blog no WordPress.com. | Tema: Motion até volcanic.
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 185 other followers